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domingo, 22 de março de 2009

Voltei a escrever

Depois de um longo período de ausência, voltei a escrever. Provavelmente, ficarei ainda um tempo sem atualizar o blog, até que tudo se ajeite e eu volte a ter tempo para dedicar-me a esse espaço, onde posso deixar registrado algumas de minhas impressões a respeito de vários assuntos. Deixarei aqui apenas uma impressão que tive de minha viagem ao Vietnã, em novembro do ano passado. Há tempo queria ter escrito alguma coisa sobre aquele país tão pouco conhecido de nós, brasileiros. O que gostaria de ter feito, na verdade, era de ter deixado minhas impressões no mesmo tempo em que as percebia, quando ainda estava por lá. Mas não deu: foi uma semana muito intensa e cheia de atividades. Teria dado tempo durante os vôos de volta, mas estava tão cansado que passei várias horas em pleno ostracismo. Afinal de contas, só de pensar o tempo de vôo que ainda restava já era suficiente para a preguiça reinar sobre todas as outras sensações. Meu vôo deveria sair de Ho Chi Minh City, fazer uma breve pausa em Bangkok e partir para Paris, de onde eu pegaria uma conexão imediata para o Rio de Janeiro. Eu só não contava com uma incipiente revolução na Tailândia, que levou milhares de pessoas ao aeroporto internacional de Bangkok e ao conseqüente (não, eu ainda não aderi à reforma ortográfica; quem sabe até o final do ano...) fechamento do aeroporto. Resultado (visualize no mapa e some as horas): peguei um vôo em Ho Chi Minh com destino a Tóquio (5 horas de viagem). De lá, peguei uma conexão imediata para Paris (13 horas de viagem). Como tinha um tempo razoável de solo em Paris, levei um colega para conhecer, ou melhor, ver um pouco da cidade. O destino escolhido foi a Torre Eiffel, seguido de um passeio no Marais. De volta ao aeroporto, peguei o vôo para o Rio (11 horas de viagem), para depois pegar a conexão, já em solo brasileiro, para Brasília (1h30 de vôo). Caso tenha se perdido na conta, darei uma ajuda: foram 30 horas e meia de ostracismo, exceto pela constatação da extensão territorial da Rússia, comprovado pelas horas em que o aviãozinho do monitor em frente à minha poltrona indicava. Mas, voltando ao Vietnã. É incrível como cidades tão distantes podem se parecer tanto. Pois acreditem: Ho Chi Minh City, antiga Saigon, é muito semelhante a várias cidades brasileiras. Destaco sua semelhança com Belém do Pará. Tenho uma teoria da razão dessa semelhança. Em primeiro lugar, devido à própria geografia de ambas as cidades, que apresentam clima bastante semelhante, marcado por um clima tropical úmido, com elevadas temperaturas e chuvas diárias durante as tardes. Além disso, as duas cidades são cortadas por um rio de águas amarronzadas, que as conecta ao oceano. Além da geografia, a história também explica a semelhança. Saigon é considerada a Paris do Oriente, com suas construções ocidentais, que remontam à época de colonização francesa. É claro que há diferenças enormes entre a arquitetura francesa e a portuguesa, mas quando você está na Ásia, onde os padrões arquitetônicos são bem característicos, qualquer construção ocidental parece assemelhar-se. Se não fosse a fisionomia dos vietnamitas, dificilmente você se sentiria na Ásia, caso restringisse sua visita ao centro de HCMC. A guerra ainda parece estar bastante presente no imaginário dos vietnamitas. Grande parte do turismo na região de HCMC está, de uma forma ou de outra, vinculado às guerras contra a França e, principalmente, contra os Estados Unidos. Em HCMC, há um museu dedicado exclusivamente à guerra contra os americanos, como forma de mostrar aos visitantes os horrores causados pelos yankees. Cheguei a ver um homem de meia-idade, que parece ser um sobrevivente da guerra, com mãos e pernas mutiladas, além de olhar de desolação. O museu expõe alguns armamentos e tanques utilizados pelos vietnamitas durante a guerra, mas o que causa grande incômodo aos visitantes são as fotos de civis, alguns mutilados, outros com deformações. Pensei em publicar algumas dessas fotos, mas, em respeito ao leitor, achei melhor não. Além do Museu da Guerra, visitei em Cu Chi, uma cidade ao norte, não muito distante de HCMC, alguns túneis subterrâneos utilizados pelos vietcongs durante a guerra. Esses túneis foram, em grande parte, responsáveis pela vitória do Vietnã na guerra. São verdadeiros labirintos, acessíveis apenas aos vietnamitas, com sua baixa estatura e corpo fino. Um americano dificilmente conseguia entrar no túnel, sob o risco de ficar, literalmente, entalado e capturado pelos vietcongs. Para que o turista tivesse acesso aos túneis, foi preciso adaptá-los às medidas ocidentais. Arrisquei percorrer parte do túnel: foram os 15 metros mais longos de minha vida. A sensação de claustrofobia é intensificada pela escuridão e pela baixa ventilação do túnel. Durante a visita, os guias fazem questão de que vejamos um vídeo sobre o horror causado pelos inimigos à população. Além disso, eles mostram, com orgulho, um tanque norte-americano reconstituído, após ter sido detonado por bombas vietnamitas. Passados mais de 30 anos do fim da guerra, ela ainda move o país. Seja com o turismo ou com as marcas da guerra nos corpos de sobreviventes, dificilmente ela deixará de estar presente no imaginário dos vietnamitas. Esses museus servem para mostrar a ignorância da guerra, mas, principalmente, para que as gerações futuras se dêem conta que ela não é recurso para solucionar conflito algum, muito menos se for motivado por ideologia.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

"Prefiro preto a mulher"

A frase título dessa postagem foi pronunciada por Caetano Veloso no show Obra em Progresso da semana passada, logo após saber da vitória de Barack Obama como candidato democrata nas próximas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Apesar de Caetano admitir outras possíveis conotações a essa frase, ele quis dizer que prefere Obama à Hillary Clinton. Nesse contexto, também prefiro preto a mulher.

Desde o início dessa campanha, meu candidato é Barack Obama. A Hillary é simpática, mas é mulher de um ex-presidente. Caso vencesse as eleições, criaria uma espécie de poder hereditário nos Estados Unidos, representado pelos governos Bush-Clinton-Bush-Clinton. E isso seria algo que certamente decepcionaria Tocqueville. (Pensando agora, acho que é por isso que não tenho simpatias a Sra. Kircher, na Argentina. Democracia pressupõe alternância de poder e não há alternância quando mudam apenas as figuras e não os sobrenomes.)

Obama representa mudança (aliás, foi com esse slogan que conseguiu a nomeação para concorrer às eleições) em vários sentidos. A despeito de muitos analistas afirmarem que não se trata de uma questão racial, Obama é o primeiro candidato negro a concorrer à Casa Branca, e isso é uma novidade positiva para a democracia norte-americana. Ironicamente, acho que o que propiciou sua nomeação foram as gestões de Colin Powell e Condolezza Rice à frente da Secretaria de Estado no governo de George W. Bush. Com eles, o povo americano acostumou-se com negros ocupando cargos de primeiro escalão no governo.

A principal mudança, no entanto, é a novidade que Obama representa. Sua inexperiência política suscita dúvidas de como seriam os EUA sob sua administração. Suas propostas ainda não estão claras, principalmente em termos de política externa. Agora que Obama já é o candidato oficial do Partido Democrata, ele terá de apresentar propostas concretas capazes de convencer o eleitorado indeciso, já que muitas das posições do candidato republicano foram expostas enquanto os democratas ainda escolhiam entre a "mulher" e o" preto".

Agora sim a campanha eleitoral começará a ferver nos EUA. Os norte-americanos precisam de soluções para problemas como a crise econômico-financeira que o país atravessa e para o fracasso da ação no Iraque. E quem poderia imaginar que um mulato com o nome de Barack Hussein Obama seria a nova esperança da América? Ironia do destino!