Com essa, já são 3 as postagens sobre a China. Provavelmente outras surgirão, pois muitas "algumas impressões" sobre aquele país ainda estão vivas em minha memória.
Conversando com uma guia turística em Xi'an, ela começou a falar de seu filho. Não me lembro exatamente sobre o que conversávamos, mas, de repente, faço a pergunta mais idiota que alguém poderia fazer a um chinês: "você só tem um filho?" Elegantemente, Lisa (esse é o seu nome ocidental) relembrou-me da política de filho único praticada na China desde a década de 1970. Mas gafes acontecem, até mesmo com presidentes da República... Minha gafe, no entanto, foi o gancho que Lisa precisava para me perguntar: "você tem irmãos?" Seus olhos brilharam quando respondi positivamente à pergunta. Acredito que, se dependesse apenas de sua vontade, teria mais algum(ns) filho(s). Preferi mudar de assunto.
A reação de Lisa me levou a conversar com algumas pessoas sobre os efeitos psicológicos de uma sociedade sem irmãos. Um é que, na ausência de um irmão de sangue, os chineses buscam criar laços fraternais com seus melhores amigos. Ou seja, "já que não tem tu, vai tu mesmo".
Um segundo efeito mostra como pode ser perverso essa política. Como os pais têm apenas um filho, eles querem que ele seja o melhor em tudo. Assim, querem que seu filho seja o melhor na escola, o melhor atleta da turma, que toque um instrumento musical de maneira virtuosa, que fale inglês como um nativo... São tantas exigências (e as atividades são postas em prática na tentativa de se atingir os desejos dos pais) que as crianças mal têm tempo para se dedicarem ao lazer. Eles têm, literalmente, compromissos de segunda a domingo. Salvo engano, em muitos casos, seus horários de lazer resumem-se a 2 ou 3 horas nas sextas-feiras à tarde.
Alguma recompensa os pais têm de oferecer a seus atarefados filhos. E a recompensa, talvez até por remorso, é o mimo.
O que mais preocupa as pessoas com as quais conversei (todas ocidentais) é sobre a futura liderança do país, que será comandado por uma geração de adultos mimados. Apesar de muito bem informados, terão pouco conhecimento de como o sistema realmente funciona, já que foram super protegidos pelos pais. É claro que muitos mimados chegaram ao poder no Ocidente. O problema é quando toda uma geração possui essa característica.
Em meio a tanta tragédia em decorrência dos terremotos na China, uma boa notícia: o governo relaxou a política de filho único e anunciou, nessa semana, que os pais que têm filhos feridos ou mortos pela tragédia poderão ter novo filho ou adotar quantos órfãos quiserem. Esses, a despeito do infortúnio, terão o privilégio legal de ter aquilo que muitos chineses possuem apenas em sonhos: um irmão.
Há 5 anos